Mudar dói

Foto: Arquivo Pessoal

*Coloque o fone de ouvido: áudio do texto no final

Mudar dói.
Mudar é muito mais difícil que imaginei.
Como é difícil romper os elos que me ligam a quem não quero mais ser.
E diante dessas dores… Me vejo sozinha, incompreendida, subindo a escada da morte e descendo a escada da vida. Divagando entre a angústia de ser e não ser.
Noites sombrias, frias e penetrantes. Não há consolo em uma alma sedenta. A espada cruel que corta a minha alma e dilacera o meu coração está na bainha do meu amigo, do meu familiar, de quem eu confiei, daqueles que me traíram.


Me vejo andando sozinha, em uma névoa de dúvidas, incertezas e indiferença. Na beira de um abismo que não enxergo… que está bem diante de mim, esperando que eu escorregue.
Nada pode me alcançar. Meu espinho na carne, não será curado… Eu sei… a Sua Graça me basta. Então, me encolho e abraço a uma esperança sem rosto, sem futuro, sem identidade, sem Presença e me perco em um labirinto assustador.


Não me vejo em Você e ao ver tanta dor no mundo, sinto-me perdendo as horas e o sorriso escapando pelo canto da boca com tristeza. Meu espinho na carne, não será tirado… Eu sei, mas peço mesmo assim. Sua resposta é clara e o fim. Talvez devesse insistir uma terceira vez, mas a resposta é a mesma. Eu não serei curada. A Sua Graça me basta.


Nessa hora, sem forças deito no chão frio e me encolho de novo. Não quero ser fraca, mas minha vulnerabilidade sussurra em meu ouvido. “Você é humana!” Estremeço e choro… lágrimas sem sentido. Perdi o controle que eu nunca tive. Não quero levantar. Não quero mudar. Não quero ser humana. Não quero ter medo. Não quero sentir dor… Mas nada adianta… eu me perco de novo e me desespero por não saber o próximo passo.


Fecho os olhos, vejo o quintal bonito, com grandes árvores, o balanço feito de pneu velho e meu irmão balançando nele, dizendo… “Olha, eu estou voando! Você quer voar?”
Eu queria voar agora. Voar bem alto para encontrar Deus e abraçá-Lo, porque eu estou com medo… Muito medo. Medo da minha fragilidade. Medo de não existir um futuro para mim. Medo de ter vivido em vão. Medo de não ter feito o suficiente. Medo de não mudar e de mudar também.


Sinto o cheiro da terra, da grama e do mato em volta da casa velha de madeira e assustadora, o grande tanque de lavar roupa, a cerca de arame farpado, a sombra fresca, o banheiro fora da casa, os pés descalços na chão, nossos cachorros e gatos… Ainda ouço a voz: “Você quer voar?”… “Você quer voar?”


Que lembrança boa! Que lembrança leve e tranquila! Como era bom ser criança quando me era permitido. Eu podia voar para qualquer lugar na minha imaginação. Podia dar a volta ao mundo, conhecer várias pessoas, culturas e lugares incríveis. Eu podia ser quem eu quisesse e no meu mundo havia justiça, verdade, amor e compaixão.

Não existia escassez, as crianças brincavam despreocupadas e Deus era nosso grande amigo. Ele sentava na nossa mesa e se divertia com nossos bolos e sobremesas feitos de terra que se transformavam em comida de verdade.
Ouço as gargalhadas dEle e me divirto com o seu jeito simples, sentado no chão como a gente.”Pacificador”, foi o nome que nós Lhe demos. Ele gostou tanto que encheu o peito de ar e abraçou todos nós com ternura. Me sentia segura e protegida com Ele.


Lembranças…


É possível sentir dores em lugares inimagináveis? Prendo a respiração, está escurecendo e tudo começa desaparecer. “Você quer voar?” e o balanço desaparece. Nada mais resta, nem a casa, nem o quintal e nem eu.
Uma insegurança me aperta, como uma serpente ao capturar a sua presa. Não consigo respirar, nem me levantar do chão… “Tira esse espinho, Deus! Eu lhe imploro!”
Não há resposta… Eu já sei a resposta. Será assim e não há nada que eu possa fazer.

Um dia, você se acostuma com o mundo que há dentro de você e perceberá que algumas lembranças, senão a maioria, te acompanharão até fim de sua vida. Você terá escolher em se permitir, ser transformado por elas, atravessando a dor, ou seguir negando… resistindo. Será mesmo que a gente se acostuma com o mundo dentro de nós? E o mundo fora de nós?


Não consigo abrir os olhos, acho que é o meu fim. Talvez, esse seja meu fim. Estou cansada… Tudo bem, agora.
O silêncio se instala e de repente ouço um assobio. Um som fraquinho que vem aumentando a medida que se aproxima. “Quem está aí?” Não consigo ver. A impotência aumenta, minhas mãos doem, estou paralisada e não quero levantar. Não quero me defender. Não quero me proteger. Me entrego ao fim.

Estou cansada. Cansada de tanta maldade, egoísmo, arrogância e prepotência. Cansada de tanta crueldade e injustiças. Cansada de viver em um mundo que eu não compreendo. Que maltrata. Que quer tirar proveito e quer sempre algo em troca. Que descarta outro ser humano como um objeto. Que engana. Que oferta a mentira e ri da sua cara. Que não respeita os limites. Indiferente a dor do próximo. Um mundo líquido… totalmente líquido.
Talvez, eu deva desistir.


A canção se aproxima. Tão bonita! Tão alegre! Sinto que conheço essa canção.
Não quero ter esperança, mas o meu coração se enche de algo inexplicável no meio de toda essa escuridão… Essa melodia…
Alguém chegou e se aproximou. Não consigo abrir os olhos, a luz é muito forte. Não consigo me mexer, quero ver seu rosto, mas não posso. Sinto um toque nos meus cabelos e uma voz suave me dizendo:
“Levanta!”


Dentro de mim diz:
“Não quero! É melhor assim, não suporto mais!”
Ele insiste com amorosidade:
“Levanta! Você quer voar?”
Meu sentimento é de desistência e grito com tamanha fúria dentro de mim:
“Me deixa aqui. Não quero mais!”
Sinto, esse Alguém sentar do meu lado. Segura uma das minhas mãos com carinho e firmeza.
“Não precisa ter medo! Está tudo bem. Não precisa ser forte o tempo todo. Estou bem aqui, sempre estive e sempre estarei”.


A Presença dEle, me é familiar. Seu bom perfume me traz aconchego. Sinto sua paz, seu profundo amor me envolvendo e aquecendo o meu frio coração.
Começo a me mover e deito de barriga para cima, abro os olhos e posso ver céu negro como um tapete cheio de estrelas brilhantes.
“É impressão minha, ou o Céu desceu?”


Ele riu, soltou minha mão, se deitou do meu lado de barriga para cima, pegou minha mão novamente e colocou no peito dEle.
Pude sentir as batidas do Seu coração. Ninguém era parecido com Ele. Ninguém. Me senti tão a vontade que parecia a minha criança de oito anos de idade. Ele me disse:
“Hoje, Eu fiz o céu descer para você!”
Surpreendida, percebi que os meus olhos não se incomodavam com a luz dEle. “Uauu, quem é Você?”

Ele riu e com um bom humor disse:
“Já se esqueceu do meu nome? Já se esqueceu das nossas brincadeiras e os bolos de terra? Eu Sou Alguém que te conhece, muito antes de você existir. Meu nome é Eu Sou, mas você me chamava de Pacificador. Chegou a hora, vou te ensinar a voar!”

Naquele momento, não houve dor, nem tristeza, nem medo, nem angustia, nem solidão, nem desamparo… mas um silêncio acolhedor e um céu cheio de estrelas brilhantes.

A esperança renasceu e agora só existia Ele e eu…

Então, me levantei. Ele me ajudou e eu aprendi a voar.


Autora: Paula Gouveia

Áudio do Texto (Voz Paula Gouveia)


Um comentário sobre “Mudar dói

  1. Mudar doi sim mas, é necessário,vale a pena…a gente nasceu para evoluir,se ajudar,compartilhar… nós precisamos do outro, precisamos ser abraçada,impulsionada,inspirada…o mundo precisa de amor💖💖💖💖💖💖💖💖

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