Curar-se em Amor

Foto: Arquivo Pessoal – Obra Lino do autor André Neves

*COLOQUE O FONE DE OUVIDO: ÁUDIO DO TEXTO NO FINAL

Na noite fria, a Solidão abraça o coração doente, para ensinar-lhe que a aceitação transforma a própria solidão em solitude e a carência em amor-próprio. Então, você ofendida empurra a Solidão, porque ela é mais congelante que a noite, decidindo andar na penumbra, em total vulnerabilidade irresponsável, mostrando poder e orgulho, culpando as circunstâncias, o passado e a todos, menos a única responsável por se sentir tão desprezível: você mesma.

Se olha no espelho, negando enxergar-se tal como é… um ser imperfeito, vestida de adereços “perfeitos” para torna-se aceita, mas o que vejo é uma casca fina e frágil que está se desmanchando com o tempo e a angústia de amadurecer. Nada nos faz sentir tão pequenos, quanto o desejo de querer ser alguém que ainda não alcançamos ser. Então, procuramos fora o deveria ser buscado dentro, mesmo em plena a luz dos nossos dias mais escuros. Peço a lamparina de Diógenes de Sinope e caminho em busca de uma luz real, em busca da Verdade e de virtudes diante da minha humanidade complexa e hipnotizada pelo caos individual e coletivo no mundo.

O que me faz miserável? Será que é você quem me define? Ou o que me define é aquilo que vejo sem resistência? Bom ou ruim, para mim ou para você? Certo ou errado, para mim ou para você? Poderia alguém me dar algo que não tem? Poderia eu dar a alguém algo que eu não tenho?

Caminho em direção a alguma luz que me revela o que não quero ver e luto para fingir que não está doendo. O sangue está escorrendo, manchando todo o Bem que ainda possa existir. Escolho uma armadura de bronze reluzente, para proteger o meu coração de todos e adoeço sem entender que negando a minha vulnerabilidade, não serei capaz de tocar os corações e nem ser tocada na minha alma e no meu coração. Preciso da dor e da alegria do sentir. Resisto. O conforto da proteção, me faz sangrar por baixo da minha armadura destruída, onde escondo minhas chagas que só pioram, onde escondo sem sucesso todas as minhas cicatrizes.

Se sou forte passo uma imagem equivocada que não preciso de cuidados… Mas eu preciso de cuidados! Você precisa! Nós precisamos! A minha verdadeira força está em não se abater diante dos dilemas e desafios que a Vida me apresenta. Manterei sempre a cabeça erguida, não importa o tombo e o machucado, mas sim.. eu preciso de cuidados!

A minha força está também na minha vontade de viver de verdade, na clareza de uma mentalidade forte e lúcida. Ela está na minha vontade de buscar profundidade no meu conhecimento e nos relacionamentos que me cercam com carinho, respeito e cuidado (sem excessos rasos e superficiais). Porque também Sou delicadeza. Sou simplicidade. Sou inocência e desconfiança. Sou solidão e solitude. Sou flor de cactos, tenho espinhos e a capacidade de florescer na improbabilidade. Sou fragilidade. Sou sensibilidade. Sou aconchego. Sou abraço apertado. Sou risada escandalosa. Sou intensidade. Sou desejo. Sou feminilidade. Sou beleza imperfeita. Sou profunda. Sou medo e coragem. Sou independente e dependente. Sou espada que corta e remédio que cura. Será que estou pronta para abrir mão da minha armadura de bronze?

A Solidão se aproxima e decido deixá-la que me ensine a curar minhas partes feias. Ela pede para eu me despir da minha armadura agora trincada, mas não se assusta ao ver minhas feridas expostas. Nem se assusta ao ver todas as minhas cicatrizes. Ela me olha com amor, me toca com mãos de bondade, misericórdia, compreensão e compaixão. Ela limpa minhas feridas com a Verdade, pede para eu tomar o remédio do Perdão e passa um emplasto da Espera. Me veste com um vestido de Aceitação e usa a Arte para reconstruir o meu coração quebrado como porcelana. Laca e pó de ouro. Autoconhecimento e Experiências.

Ainda dói… Será que posso realmente andar em liberdade? Será que posso pensar com minha própria cabeça? Será que posso agir com segurança diante dos meus valores e princípios? Será que posso escolher? Será que posso finalmente abaixar um pouco a guarda? Será que posso descansar e finalmente abraçar a Paz? Será que posso trocar o sentido de sobreviver para finalmente viver?

Olho no espelho e ainda vejo imagens distorcidas. Quebro o espelho todos os dias. Decisão. Logo, descubro outras Verdades sobre Amor e abro mão das mentiras que me contaram e eu mesma contei para mim. Acreditar. Fé. Descubro o verdadeiro Amor, desconstruindo o amor ilusório, fraco, orgulhoso, egoísta, obscuro e contraditório. Encontro um Amor abundante, simples, humilde e reconfortante. Encho-me desse Amor. Fixo-me nesse Amor quando olho com Esperança. Ele está em Deus, na Natureza, na Humanidade, nas Artes, na minha Poesia e na Beleza oculta que há na Vida e até mesmo na Morte. Um Amor incondicional diante daquilo que vejo em mim e no mundo. Um Amor que transcende entre o terreno e o divino. Um Amor que é capaz de caminhar em equilíbrio entre a Paixão e a Serenidade… entre a Tempestade e a Calmaria, tornando-se uma brisa refrescante e revigorante… Um Amor Terno e Forte, sem fim.

Quero ser livre! Escolho ser livre! E, na decisão de minhas escolhas, ninguém tem mais a responsabilidade de me fazer feliz. Foi assim que decidir desistir de carregar o peso de fazer os outros felizes. Minha compreensão está nos olhos cheios de justiça e amorosidade, sem esperar recompensas, dançando na pista iluminada pelo prazer de ser e viver daquilo que se apresenta exatamente como que é. Qual será o fim da minha jornada? Estou recomeçando ou retomando a partir do ponto que parei?

Quem era eu? Quem sou eu agora? Quem me tornarei no futuro? Estendo as mãos para mim mesma e entrego a total responsabilidade de me comprometer comigo mesma, sem o meu olhar de julgamento e sem o olhar de julgamentos alheios. O juiz interno me encara com reprovação, bate o seu martelo histericamente com a fúria de um titã, desafiando-me para uma batalha insana de vida ou morte. ‘Ele grita que não é seguro’. Eu sei. Eu sei. Viver nunca foi e nunca será seguro, é preciso muita coragem para viver. O medo não me paralisa mais. Fico em silêncio ao observar o meu juiz tirano e cruel, dou uma piscada para irritá-lo e saio sorrindo como gente grande com aquele ar de rebeldia marota. Aquela rebeldia de quem não deve mais nada para ninguém. Escolhas. Eis que coloco em suas mãos a Vida e a Morte. Escolhe, pois, a Vida para que vivas. Eu escolho a Vida! Eu escolho ser livre!

Encontro o Amor na porta do tribunal que me abraça com ternura e beija a minha testa com doçura e gentileza. Talvez esteja pronta para deixar aquela armadura, quem sabe? Só assim, poderei sentir a vida em sua totalidade e plenitude. Escolho andar no meio da longa ou curta estrada de chão vermelho de minha jornada… uma via de mão dupla. Estou bem no meio das ambiguidades da minha queridinha: a Vida.

Agora é entardecer, o sol de inverno deixa as minhas tardes mais douradas, sinto cheiro de esperança e um novo começo. O Amanhã será outro dia…

Ninguém precisa mais, me fazer feliz. Eu não preciso mais, fazer ninguém feliz. E isso basta. Eu já sou feliz… e eu desejo que o coração sem rosto que busca o meu coração, também tenha se tornado feliz. Sei que um dia a Vida vai nos apresentar. Quando esse encontro acontecer, nós não precisaremos carregar o peso da responsabilidade do outro… Nossos corações se encontrarão diante da vida que acontece agora, no hoje e no presente. Vou segurar a sua a mão, mas honrarei cada cicatriz antes de você. Provavelmente, colecionaremos algumas cicatrizes pelo caminho, mas não adoeceremos e juntos podemos nos curar.

Que a leveza nos ajude a construir a nossa vida, nossa história para partilhar o amor e viver o que ainda nos espera… Muita coisa boa nos espera… O Amanhã será outro dia… outro dia… Hoje sou eu, Deus e os entardeceres dourados e silenciosos…

Amanhã quem sabe, NÓS.

Autoria: Paula Gouveia

Áudio do Texto (Voz Paula Gouveia)


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