O Espelho

Foto by Xenine Zasetskaya (Russia, Moscow)

*COLOQUE O FONE DE OUVIDO: ÁUDIO DO TEXTO NO FINAL

Naquela madrugada, a Lua misteriosa iluminava o banheiro frio e silencioso. Ela brilhava para mim, mas escolhi seguir o coelho azul que entrou no espelho. ‘Eu tinha um espelho, mas ele não era meu’. Olhei aquele reflexo que me observava durante anos, tão frágil e indefeso, mas quem poderia vê-lo? Naquela noite, somente naquela noite, ela não queria a Lua, posso ver que a esperança dela, era alcançar o coelho azul.

Você, ou eu? Decididamente ela se aproximou, tocou o espelho e se viu dentro de um labirinto espelhado, ora escuro, ora claro. Ele era perfeitamente invertido e confuso com reflexos do passado, do presente e algo parecido com “um talvez futuro”. Era perturbador, mas incrivelmente curioso. Quanto mais caminhava, mais não chegava a lugar algum, então correu, as forças minguaram e quando se deu conta, estava rastejando na lama do desespero, machucando-se entre pedras e espinhos no caminho desconhecido.

Não consigo me levantar’, disse para si mesma. ‘Mas eu tenho que levantar’, insistiu com raiva da sua fraqueza. Não levantou, não conseguiu. Tamanho esforço era inútil, já estava exposta e ao olhar o seu corpo, começou a lamber suas feridas em nome autodepreciação e indiferença em relação aos seus sentimentos.

De repente, ela ouviu um estranho barulho, procurou por algo, mas o barulho crescia com muita rapidez. Era o feroz minotauro, preso naquele labirinto e sem que ela se desse conta ao se virar, pôde vê-lo e notou que a raiva dele refletia a raiva dela também. Aquela raiva refletia em todos os espelhos, abrindo um precipício, um abismo entre ela e a paz, entre ela e o mundo… O olhar furioso do minotauro estava sobre ela e em um acesso de fúria, ele se jogou violentamente contra o espelho para pegá-la. Medo. Ego. Vermelho. Insegurança. Lá estava ela, completamente perdida e quem a convenceria de que era o seu fim?

De súbito, uma tempestade se aproxima, não dá tempo de procurar abrigo, entre os seus conflitos e os seus desejos, viu no ciclo do desiquilíbrio uma chave brilhante, mas antes que conseguisse pegá-la, caiu naquele instante uma chuva torrencial de problemas, equívocos, mentiras, ilusões, sofrimentos, desespero, desesperança, desencontros… PROCESSOS! DOR! ANGÚSTIA! DOR! Quem sabe é hora de desistir! ‘Desista’, disse uma voz arrogante para o Ciclope no Inferno de Dante que refletia em um pequeno espelho. Meu ego! Seu ego! Ela o viu em algum lugar dentro dela, mas só podia encará-lo naquele espelho à sua frente. ‘Você será punido, aceite sua fraqueza!’ Ouço a gargalhada do grandioso Ciclope. Nem os deuses têm poder para isso”, grita ele com soberba. Resta-lhe a sua punição. Perderá a sua Visão! Cegueira Espiritual?

Sem forças, sem esperança, caída, molhada pela tempestade e exausta na estrada de pedras e espinhos… Ela se viu em todos os espelhos grandes e pequenos. Inteiros e trincados. Como um espelho se quebrou em mil caquinhos. Foi profundamente ferida e nem pôde realmente recolher com cuidado, os pequenos cacos que restaram, ou escolher entre deixar sangrar ou curar, entre desistir ou perseverar… Quem seguraria a sua mão? Quem curaria sua Visão? Quem olharia para ela, agora sem casca e em sua própria pele? Exposta! Exposta?

Aquela tempestade alagou o corredor onde estava, a chave brilhando desceu ao subsolo. Não devia ser importante, mas era a peça principal do jogo da vida. Naquele instante a Lua com pena da pobrezinha, desceu e a abraçou. Seu abraço era frio, mas havia algum consolo nele e um silêncio. Ela não recusou o abraço, estava acostumada a aceitar todo tipo de migalha afetiva, instabilidade, viciada no caos de uma vida dura e mergulhada numa bagunça emocional. Rastejava.

A Lua era belíssima, mesmo sabendo que irradiava um brilho que não era dela, mas era possível ver a força e o poder da sua segurança. ‘Era dela o brilho da segurança ou era emprestado de algum rei?’ A Lua ficou triste e precisou ensiná-la algo muito importante e mostrou a sua outra face. Foi na face obscura da Lua que ela pôde ver a sua vulnerabilidade. Assustou. Teve medo. A Lua segurou a mão dela e a colocou na sua face obscura. Sinta no toque a sua vulnerabilidade (a nossa vulnerabilidade). Sentiu dores nas mãos (a falta de controle), sentiu uma angústia apertar o coração dolorido e esmagado dentro da armadura de bronze que depois de tantos anos parece desconfortável.

A Lua disse com sua voz suave e delicada: ‘Você não poderá aceitar a face iluminada, se não aceitar a face obscura também. Completude. Equilíbrio. Vazio. O brilho e escuridão da Lua é definição daquilo que somos e daquilo que continuamente estamos nos transformando. Vai ter que escolher destruir seus muros e aceitar a sua outra face também. Por que ainda está usando essa armadura’?

Assustada, ela olhou para a Lua, agora escura, talvez sem cor, sem forma e sem brilho. Quem é você? A Lua voltou a iluminar o céu escuro rodeada de mistérios e depois foi desaparecendo. Como isso é possível?

O minotauro continua batendo contra os espelhos e um deles se trincou. Escuridão. Antes de pensar em fugir, o coelho azul apareceu e mostrou a ela um novelo de lã esticado que marcava o caminho de volta para casa. Ele disse, ‘Você pode seguir o caminho indicado ou pode escolher seguir-me e nunca mais voltar’. Então, continuou suas instruções para a moça rebelde de armadura enferrujada: ‘Siga aquela direção primeiro, dê alguns passos, desenhe no ar uma porta que se materializará, use a chave brilhante para abri-la. Atravesse, encontre o minotauro e mate-o! Depois, siga em frente, o próximo caminho irá se abrir e você avistará a Saída’.

A chave? A chave desapareceu nessa lama toda. Poderia estar intacta?’, ela pensou. Mas era tarde demais, o coelho azul havia desaparecido, porque quem quer viver, não alimenta a cor de quem não enxerga a saída… Ela tinha pouco tempo, mas queria viver muito. Olhou no espelho e agora está enxergando você. Ela pergunta: Quem vai matar o minotauro? Você!

Pulou na poça de lama e desceu ao subsolo. A chave brilhante fundiu-se ao meu Ser. Escuridão. Isolamento. Silêncio. Crescimento Invisível. Dor. Negação. Resistência. Sufocamento. Movimento. Expansão. Branco. Em fim a Luz. A saída. Onde está o minotauro?

Ela seguiu a linha do novelo de lã, levantou a sua espada com um coração valente e correu em direção ao minotauro. Ele desapareceu como fumaça. Meu medo? Seu medo? A chave Sou Eu?

Agora, estou diante do espelho de Alice e não vejo mais duas pessoas distintas, apenas uma única pessoa em construção… em conflitos, em dilemas, mas em transformação. Incompreensão? Julgamentos? Aceitação? Verdade?

Levantei a minha espada…

Quebrei o espelho de Alice e agora, vemos por um outro espelho em enigma…

Mas, então, veremos face a face…

Porque agora, conheço em parte…

mas, então, um dia conhecerei como também Sou conhecida.

Autoria: Paula Gouveia

Áudio do Texto (Voz Paula Gouveia)

4 comentários sobre “O Espelho

    1. É verdade, a Vida pede coragem todos os dias. Não é sobre ter talento ou habilidade.
      É sobre acordar todo o dia e fazer o que precisa ser feito. Certificar-se de estar apreciando cada etapa de nossos processos. Vivendo sem precisar provar coisa alguma. Disciplinar-se e divertir-se, enquanto caminhamos para o lugar para onde estamos indo.

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