É aos poucos…

Foto By Pinterest (O Rei Leão – Disney)

*COLOQUE O FONE DE OUVIDO E VÁ ATÉ O FINAL DO TEXTO: ÁUDIO DO TEXTO COMPLETO

É aos poucos que crescemos.

É aos poucos que amadurecemos.

É aos poucos que a gente vai ressignificando um punhado de coisas, circunstâncias e situações.

É entardecer, ouço o barulho das cigarras e uma brisa suave soprando. Fecho os olhos para sentir, silencio a minha mente e estou conectada ao meu presente. Lágrimas quentes descem no meu rosto e respiro fundo sentindo o meu corpo contraído de tensão… aos poucos relaxando. Nesse instante, não existe mais o passado e nem o futuro, somente o Agora, esse momento, eu.

É aos poucos que vamos conquistando muito silenciosamente e com a tranquilidade de que estamos fazendo o nosso melhor com aquilo que a Vida colocou em nossas mãos, sem esperar aprovação de ninguém. Às vezes é difícil, nos cobramos demais, mas o mundo já nos cobra além da conta (e a gente autoriza isso), por isso se acolha, se ame e se respeite. Você merece o melhor com reciprocidade e muito carinho.

Abro os olhos e continuo meu passeio como um observador que nem existe, mas que apenas está aqui. Não sou mais eu, não sou meu CPF, nem a cidade onde nasci, nem a cidade onde moro, não sou minha família, nem aquilo que acredito, não sou nada daquilo que acho que me define, não sou as coisas que tenho e nem as coisas que desejo, não sou ninguém. Eu Sou apenas Eu Sou.

Quem você pensa que é? Ou o que você imagina que seja? Será que coloco limites através de definições que tentam me etiquetar? Quem sou de fato naqueles que eu amo e me amam? Quais são os meus valores? Quais são os meus princípios? Você se vê não cabendo na caixa? O que te garante que você saiu da caixa?

Crescer dói. Abrir mão de velhas crenças, questionar certos valores, olhar para você com franqueza e verdade… dói muito. Dói crescer, dói aceitar quem eu sou, dói aceitar a minha vida, dói assumir a total responsabilidade de quem eu me tornei e dói abrir mão das velhas historinhas que vivemos contando para nós mesmos, afim de justificar o nosso vitimismo e insignificância diante de um Universo tão vasto e poderoso. Dói e não podemos impedir a dor de chegar, nos ensinando que precisamos mudar e abrir mão dos velhos paradigmas que aparentemente são seguros e confortáveis. Vai doer quando você decidir mudar.

Um passo de cada vez, porque a gente cansa.

A gente está cansado faz muito tempo, mas mesmo assim negamos, resistimos e continuamos nos mutilando com os mesmos pensamentos, sentimentos e comportamentos destrutivos que não estão nos levando a lugar nenhum. Produzindo sempre a mesma vida, alimentando o mesmo velho homem em nós, os mesmos hábitos ruins… Potencializando mais do Mesmo. Do mesmo ser que a gente não se identifica mais.

Me perco no meu caminho para me achar melhor… aqui olhando e não vendo nada, eu sei… escuto em meu coração a Vida sussurrando para mim, desesperadamente me pedindo mais… mais… mais… E por medo de atravessar o meu abismo, sinto-me tentada a ceder, porém algo perturba a minha alma e me coloca contra a parede da decisão, olhando em meus olhos com a certeza de que eu posso experimentar muito mais do que tudo o que está sendo ofertado a mim como migalhas.

Tememos, mas a Vida pede mais coragem. Tememos, mas a decisão é sempre nossa. Tememos, mas viver, tentar é o que move a nossa paixão… é o que queima como labaredas de fogo dentro de nós, purificando tudo o que não tem mais relevância… purificando nossas intenções e desejos mesquinhos e ostentadores.

É aos poucos que vamos nos despindo de quem não queremos mais ser e nem da vida que não faz mais sentindo para gente. Um eu que não cabe mais em um eu que pensei que eu era. Se transformando em um eu que se levanta da mesa quando o amor e a reciprocidade não são mais servidos. Um eu que sai pela porta do Amor Próprio e nunca mais olha para trás. Um eu que não teme a morte dos velhos comportamentos e da falta de autoconfiança. Um eu que adora as roupas simples da coragem, da fé e da esperança. Um eu que continua construindo a sua vida de forma transparente, bonita e correta. Um eu pequeno, mas a vontade comigo mesma.

Ouço uma voz! Devemos deixar ir tudo que não agrega valor, (morrer, se preciso for) para abrir espaço para o novo”.

Será que no final de nossas vidas, olharemos para trás e sentiremos que fizemos tudo que estava ao nosso alcance? Será que realmente vivemos como de fato gostaríamos de viver? Será mesmo que preciso de tudo que sempre imaginei que precisava? Será que já não tenho tudo que preciso? Será que o que buscamos no final é amar os nossos e ser amados por eles como somos e como eles são? Será que no final o que buscamos é admiração das pessoas da nossa família e da nossa criança ferida? Por que fazemos o que fazemos? Por que buscamos o que buscamos? Por que nada é o bastante? A quem estamos tentando provar o nosso valor? Por que temos tanto medo do vazio? Por que temos tanto medo do silêncio? Por que temos tanto medo da desaprovação e não aceitação?

Por que usamos a força para sustentar uma carapaça que nem faz sentido para gente? Por que temos medo de desconstruir nossas falsas imagens de poder? Por que nos sentimos ofendidos com quem nem significa nada para gente? Por que nos sentimos pequenos por quem não nos conhece, não está conosco em suas lutas diárias, não sabe dos nossos desafios e dilemas, não enxuga nossas lágrimas quando estamos cansados? Quem são os figurantes de nossas histórias? Por que é difícil perdoar esses figurantes? Por que é mais difícil ainda perdoar a nós mesmos do que os outros? Por que é tão difícil nos acolher e respeitar os nossos limites? Por que é tão difícil nos amar primeiro?

Respiro fundo, uma criança passou e sorriu para mim com os seus olhos apertadinhos… Olhos de inocência… leveza… continuo caminhando olhando para a pequena reserva de árvores do meu lado esquerdo… O sol está descendo…

Por que autorizamos o outro a nos desestruturar quando na verdade somos nós quem permitimos? Por que achamos os outros melhores, se só conhecemos o externo? Todos estamos travando batalhas invisíveis e no final a verdadeira luta é contra nós mesmos, nosso orgulho, nosso ego, nossos medos, nosso egoísmo, nossa inveja, nossas inseguranças… a nossa humanidade. Sentir isso não nos define em nada, todos sentem, mas o que nos define é como reagimos diante dessas emoções e sentimentos. E por que tudo isso seria feio, se existe dentro de todos os seres humanos? Se existe o bem e mau em mim, qual eu escolho alimentar? Qual eu escolho pensar, sentir e agir? Não controlamos o que sentimos, mas podemos ressignificar como pensamos diante disso, alterando o nosso sentimento e agindo de forma coerente.

Continuo caminhando… um passo na frente do outro… paro e já está escurecendo.

Se eu disse não ser quem sou e como se não existisse, por que estou questionando tudo isso? E se eu não estiver questionando, mas vendo pelas lentes do meu observador e sem me perturbar?

Não existe o outro. O outro é o meu espelho e ele está ali apenas para me mostrar as partes que preciso apreciar, valorizar mais em mim ou alinhar, corrigir aquilo que preciso mudar em mim. O outro não tem poder sobre você, o que ele faz só revela quem ele é. O que fazemos, só revela quem somos. Só que para mudar, eu preciso aceitar, mas aceitar é jogar limpo comigo e ser humilde o suficiente para entender que onde estou nesse momento é de minha total responsabilidade e de que estou fazendo o melhor que posso com o que tenho, enquanto busco condições melhores, para fazer melhor. Foi isso que aprendi com o professor Cortella e com os meus conflitos internos diante daquilo que passei a observar na vida e em mim.

É aos pouco que vamos entendendo a diferença entre acomodação e aceitação. Acomodar é morte. Aceitar é estar aberto para as possibilidades… é movimento. Para mudar precisamos aceitar o que a Vida como realmente é (no duro). Assim, tirar os óculos de lentes cor de rosa da negação e resistência teimosa.

É aos poucos que vamos aprendendo com nossos erros e acertos.

É aos poucos que passamos a enxergar tudo de um jeito incomodo, assustador, diferente e desafiador, porém inspirador e poderoso.

É aos poucos que vamos passando pela dor de crescer e nos tornamos grandes.

É aos poucos que paramos de nos desesperar por aquilo que não está em nosso controle.

É aos poucos que compreendemos (como foi alertado por um grande pensador) que todos nós, mais cedo ou mais tarde, sentaremos para um banquete de consequências.

É aos poucos que vamos abrindo mão de ideias absurdas de conspirações, abrindo mão de poderes mesquinhos onde sempre ocorrem subterfúgios vazios que só empobrece o espírito e desonra o coração.

É aos poucos que vamos colocando limites para nós e para os outros.

É aos poucos que entendemos que o outro nunca foi o culpado, mas mesmo que a gente sinta o impacto da má atitude do outro em relação a nós, hoje aprendi que devemos assumir a responsabilidade de como nos sentimos, porque é impossível não sentir, mas o importante é o que eu faço com isso, como eu ressignifico isso e me torno livre.

É aos poucos que compreendemos nosso propósito de vida e qual o nosso papel no mundo.

É aos poucos que aceitamos lutar por nossos sonhos sem esperar aplausos e o apoio que gostaríamos.

É aos poucos que deixamos para lá tudo aquilo que não vai acrescentar nada em nossa vida e passamos a sermos mais essencialistas naquilo que realmente é importante para nós.

É aos poucos que vamos dominando a raiva destrutiva e transformando-a em uma força construtiva que se torna motivação pelo qual os oprimidos a utilizam como ferramenta para encontrar a liberdade e transformar a evolução da consciência.

É aos poucos que vamos compreendendo que Ser, não é um lugar que se chega, é uma jornada, muitas vezes solitária no interno, mas que pode ser bem acompanhada no externo com quem realmente vale a pena dividir nossos dias, desabafos, alegrias e lágrimas de fragilidade, pessoas que nos permitem mostrar nossa vulnerabilidade sem o medo sermos julgados, ou menos amados, ou menos admirados. Poucas pessoas que nos amam e nos aceitam porque nos conhecem de fato. Pessoas que nos aceitam sem colocar condições absurdas ou exigir trocas injustas, mas nos ofertam incondicionalmente o seu Amor, Misericórdia, Alegria, Compaixão e Reciprocidade.

É aos poucos que vamos compreendendo que tudo coopera para nosso bem, que estamos onde deveríamos estar com as pessoas que encontramos para aprender e a evoluir para então nos tornarmos do tamanho do nosso Pai (Deus).

Autoria: Paula Gouveia

Áudio do Texto (Voz Paula Gouveia)


3 comentários sobre “É aos poucos…

  1. A vida não tem um roteiro perfeito aos nossos olhos, tem mistérios,as vezes, não compreendemos absolutamente nada e, depois tudo faz um sentido absurdo.A vida é beleza justamente por estar fora do nosso controle,as incertezas nos apavoram…viver é um ato corajoso.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Aqui no entanto tento não olhar para trás e sempre que possível seguir em frente, abrindo novas portas e fazendo coisas novas, porque sou curiosa…e a curiosidade continua conduzindo por novos caminhos e a dar coragem para enfrentar os obstáculos no caminho e talvez quem sabe curtir a paisagem

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s