Permissão ao Mundo

 Photographer Philip Mckay

*COLOQUE O FONE DE OUVIDO E VÁ ATÉ O FINAL DO TEXTO: ÁUDIO DO TEXTO COMPLETO

Tudo pode mudar quando o inesperado decide entrar em cena. Talvez seja a sua hora. Que horas são? Não a hora de todos, mas a sua hora? Qual hora é a sua hora? Daí você cansa de pensar nessas horas, na sua hora, na hora dos outros e por aí a fora. É possível ser surpreendido, se o tempo todo esperamos a surpresa ou algo grandioso acontecer? Como posso ser surpreendida se estou sempre esperando? Então não vai ser surpresa quando acontecer? – disse um dia desses a menina girassol. Pois é, não sei. Você sabe?

É possível esperar em Paz?

Ela corre, olha a sua volta, têm dificuldades para respirar e me diz, “como faço para me livrar de tanto peso que permito que coloquem nas minhas costas”? Quem coloca? Olhe bem para você, para o que sente. Olhe bem para o seu coração. Ah, menina girassol, tenha calma que as coisas se transformam o tempo todo, a medida que seu olhar também muda, na verdade a medida que o seu olhar muda.

Eu a vejo correndo, sempre correndo e me canso só de observar. Está escurecendo e ela continua correndo e vive se deparando com portas que lhe prometem o Infinito. Silêncio. Talvez amanhã ao meio dia a sua luz acenda na sua escuridão. Sorria, baby!

Deixe-a se aconchegar nos braços do acaso. Deixe-a sonhar em paz. Deixe-a contar as estrelas em paz. Ela não está mais com medo, o amor o lançou fora, quem sabe para outra galáxia. Foi o que vi, e sorri também ao vê-la tão tranquila.

As cortinas do espetáculo se abrem e quem sabe qual será o próximo ato? Talvez seja necessário jogar todos os planos pela janela e improvisar. Vai saber qual será a sua deixa?… Só não finja saber esperar, porque não é fácil, não é mesmo? Medo! Quantos dos seus medos realmente aconteceram? Quem sabe quantos deles irão acontecer? E se… E se… E se… E se… Ecoa eternos ses e nada acontece… Você nunca vive o que realmente quer viver. Triste será o seu destino.

Como será que deve ser a jornada do herói? Perfeita? Zero de dúvidas? Excelente desempenho? Muitas certezas? Sucesso absoluto? E o que fazemos com a ansiedade que nos espreita a todo instante? E o que fazemos com os nossos medos humanos? Nego? Resisto? Finjo? Será que diante desse mundinho perfeitinho, é promovido o belo, os números, a fachada e um único significado de sucesso? Será que nós pobres mortais, temos o direito de sermos ruins e escolher fazer diferente?

Será que temos o direito de experimentarmos dias difíceis? Será que tudo bem nós não querermos ser medidos com as réguas da comparação o tempo todo? Será que temos autorização para sermos humanos para assumir nossas fraquezas e limitações? Será que somos autorizados a ser fraco e assumir nosso cansaço? Será que podemos chorar na frente dos outros sem precisar dar justificativas evasivas (sem sermos julgados, mas acolhidos)?

Será que podemos nos despirmos de armaduras pesadas que pensamos nos validar? Será mesmo que isso nos valida? Será que podemos nos vestirmos com a nossa própria pele, sem olhares de desaprovação a nos ferir?

Será que podemos ser acolhidos quando não somos tão bons quanto as expectativas alheias? Será que naqueles dias que não merecemos, podemos ser amados? Será que somos autorizados a não sorrir quando o nosso coração não vai bem?

O que você quer afinal?

Já pensou que sucesso pode ter um significado diferente para cada pessoa? Então, por que insiste em alimentar comparações desumanas e mutiladoras com aquilo que vomitam ser sucesso para você? O que é sucesso para você? E se em um fim de tarde, você cair em si e descobrir que tudo o que sonhou quando criança, você já alcançou?

Menina girassol, já pensou que não precisa pensar, agir e desejar como que todo mundo quer ou como todo mundo faz? O que você deseja afinal, querida? Pare de correr, que tal andarmos agora? Respire, éh o ar ainda está aqui!

Deixem que ela erre. Deixem que ela quebre a cara. Deixem que ela tenha suas próprias experiências. Deixem que ela colecione suas próprias memórias e pedrinhas na beira do rio.

Deixe-a que se perca. Deixe-a que seja derrotada por ela mesma, pelo seu ego e pela sua Vida. Deixa-a se perder e encontrar o próprio caminho, sua própria satisfação irremediável. A vida é dela, deixe-a que estrague-a.

Vem aqui! Ouça!A gente não quer viver a vida dos outros e muito menos os seus falsos atalhos”, não é mesmo? Queremos o nosso próprio caminho, nossas próprias ideias e entender as coisas com a nossa própria cabeça. Ninguém sabe onde a nossa dor é maior, ninguém sabe o que precisamos desenvolver mais em nós, ninguém seca as nossas lágrimas quando choramos no banheiro em silêncio no meio de um dia qualquer.

Ninguém nos abraça quando somos pegos de surpresa pelas circunstâncias e precisamos ser fortes para resolver os nossos problemas como adultos, mas na verdade o que a gente queria mesmo era sentar no chão e chorar feito criança. Então, não esperem que a menina girassol busque aprovação de todos, porque no final lá estará ela enfrentando as suas batalhas com o conhecimento que tem naquele momento. Ela não sabe tudo, mas só ela sabe o quanto está se esforçando. Eu sei que você também, por isso nos momentos que o queremos é desistir, insistimos mais um pouco com ajuda de Deus e de poucas pessoas que nos abraçam com encorajamento, empatia e com um café da tarde, pão de queijo, torradas e geleia de pimenta.

É preciso coragem para olhar nos olhos daqueles que sorriem para você, dizem coisas boas com a boca, mas o coração está fechado para você. Perdoe, mas tem dias que não queremos perdoar.

Então nos deixem ser maus e um fracasso por um tempo. Nos deixem escolher nossos equívocos. Nos deixem ser loucos, fora da caixa, imperfeitos, deslocados, inadequados, incompreensíveis, mas livres. Nos deixem carregar a letra escarlate no peito, porque não queremos viver como todo mundo vive, enfeitando por fora e por dentro nem sabem o que são, sendo o que os outros querem que elas sejam, prendendo-as em gaiolas de diamantes. Não queremos nos render aos ditames perversos de julgamentos, longe da verdade, mas quer saber, julguem se quiser, isso não é mais problema nosso, baby.

Nos deixem correr as avenidas da vida na direção que Deus nos dá, apesar de não compreender tudo e às vezes nos desesperar um pouco (ou muito)… Estamos vivendo!

Nos deixem andar descalço nos lugares que exigem saltos altos e sapatos de marca. Nos deixem dançar sem música em plena as três da tarde em uma quarta-feira qualquer, afinal a música está no nosso coração. Nos deixem ter um mau desempenho de vez em quando. Nos deixem caminhar sozinhos por nossos caminhos escuros, enquanto voltamos para casa depois de dia tenso, filosofando em silêncio, meditando com Deus ou brigando com Ele e conosco ao mesmo tempo.

Nos deixem abraçar nossos defeitos, nossas falhas, nossos projetos fracassados, nossos medos bobos, nossas inseguranças tolas para então desapegarmos e deixarmos ir embora na hora que tiver que ir. Nos deixem aceitar o nosso passado, lutar pelo nosso futuro do nosso jeito, abrindo mão de sugestões manipuladoras, controladoras, sarcásticas e arrogantes ((e) principalmente da ideia de que só existe um único caminho para o “tal do sucesso”, nos fazendo sentirmos culpados por não escolher o caminho – esse tal caminho aí). Deixe a gente errar e crescer com as nossas experiências!

Nos deixem ficar quietos, não dar respostas imediatas e às vezes fugir para nos proteger ou recarregar as baterias. Nos deixem mais viver o nosso presente, sem pressa, no nosso próprio ritmo, livre dos ponteiros do relógio, sem a obsessão de resultados irreais com fórmulas malucas que nos prometem ganhar algumas estrelinhas na testa no final do dia. Nos deixem sermos nós mesmos, sem filtros, sem rebocos de maquiagens, sem máscaras, sem excessos e regras ditadoras sem sentido.

Mundo, me deixe ouvir as minhas músicas preferidas. Me deixe escrever meus poemas e ler os livros que eu quero ler (na ordem que eu desejo e bem devagar). Sei que você não entende, entre uma alma antiga ou moderna, a minha alma é divergente. Respeite-a. Mesmo que você não entenda, eu já escolhi o meu caminho e ele é bem diferente do seu. A vida é muito curta para arrependimentos absurdos e somos os únicos responsáveis por nossa própria vida. Seguirei rumos sem roteiros previsíveis que todos esperam de mim. Deixe-me ser sozinha em minha solitude. Deixe-me escolher minhas poucas amizades.

Deixe-me amar quando for o momento. Deixe-me andar sem rumo, por aí. Deixe-me mergulhar sem medo de me conhecer. Deixe-me quebrar algumas coisas. Deixe-me desistir de pessoas, de coisas e daquilo não é importante para mim. Deixe-me mudar de opinião quando compreender algo melhor. Deixe-me te decepcionar também. Deixe-me abrir mão do pódio quando o troféu não faz sentido para mim. Deixe-me falar a verdade, mesmo que doa em mim ou em alguém.

Deixe-me esquecer o que não precisa ser lembrado. Deixe-me lembrar o que realmente quero trazer a memória para me dar esperança. Deixe-me desapegar do que me machuca. Deixe-me levantar da mesa quando o amor e o respeito não estiver mais sendo servido.

Deixe-me assistir minhas séries favoritas, (toda jogada no meu sofá) ou filosofar sozinha com a luz apagada de pernas para o ar.

Deixe-me ser má de vez em quando. Deixe-me dizer sim e não sem culpa. Deixe-me cuidar das minhas plantas e de vez em quando espetar os meus dedos nos espinhos dos meus cactos. Deixe-me escrever o que o meu coração me ensina primeiro e não que o que os outros querem ouvir. Deixe-me fazer nada para depois descansar. Deixe-me sair de férias e esquecer que tenho responsabilidades e compromissos. Deixe-me acordar nos fins de semana sem pressa, sem despertador, fazer meus rituais e seguir meus planos leves. Deixe-me comer meu chocolate, beber o meu café, me encantar com o estilo de vida das francesas, observar os passarinhos que entram na minha sala e saem voando livremente. Deixe-me sentar debaixo da minha janela sozinha, olhar para o céu estrelado e respirar a brisa da noite.

Deixe-me apreciar o beija-flor que vem me visitar, me dar um beijo e partir. Eu sei que Deus mandou o beijo porque está com saudades de mim, então, faço uma prece: “Obrigada, Deus por exatamente tudo que o Senhor me deu. Está feito!!”

Deixe-me cuidar de mim, me amar, me respeitar com o carinho que mereço, me valorizar com apreço, porque não vou trair a minha consciência só para agradar os outros. Deixe-me comer minha comida favorita, sem ficar neurótica com a balança. Deixe-me respirar. Deixe-me abandonada no silêncio, no embalo dos meus pensamentos a fim de me conectar comigo mesma e com Deus em mim. Deixe-me mergulhada no niilismo de vez em quanto.

Deixe-me esquecer o celular no quarto e usá-lo só quando for preciso. Deixe-me viver offline e postar só depois que passar o momento, no outro dia ou talvez quando eu quiser. Deixe-me apaixonar quantas vezes for preciso. Deixe-me ser cuidada, porque tem dias que não quero não cuidar de ninguém. Eu sou também sou frágil como asas de borboleta.

Mundo, pare de me cobrar por coisas que nem você acredita, suas explicações antigas são como cinzas e as suas defesas são fracas. Disfarça a sua ignorância com mentiras, é como médico que não cura ninguém. Se você ficasse quieto, poderia passar-se por sábio. Quem está apto para julgar a Jó? Seja realista, a gente sabe que nem tudo é o que parece em você e o ouro que nos vende é, na verdade, ouro de tolo. A Verdade está sendo desovada em um lugar remoto, como um crime perfeito, mas será que existe crime perfeito?

Mundo, deixe-me Ser quem Deus me fez para Ser. Deixe-me chorar, falar um palavrão quando estiver puta de raiva. Deixe-me acalmar sozinha, mesmo que leve dias. Deixe-me fechar a porta do meu quarto quando estiver sentindo-me acuada e com medo. Deixe-me ter medo e sentir inseguranças de vez em quando. Deixe-me te magoar. Deixe-me ser magoada. Deixe-me desistir de guerrear o tempo todo. Deixe-me em paz.

Mundo, me deixe ser humana, sem que você se ache no direito de tirar de mim o seu amor, a sua admiração e consideração. Por favor, deixe-me ser humano, vulnerável e inocente. E quando eu não merecer me acolha, me abrace e me ame, porque nos meus piores dias, quando não mereço é que mais preciso do amor incondicional dizendo para mim, “está tudo bem, hoje você não precisa ser forte”.

Mas afinal, será que você realmente precisa da autorização do Mundo para viver?

Será que somos apenas luzes? E o que fazemos com as nossas sombras?

As cortinas do palco da vida se abriram, mas cedo ou tarde se fecharão.

E quando fechar, o que nós fizemos com a nossa vida?

Autoria: Paula Gouveia

Áudio do Texto (Voz Paula Gouveia)


Um comentário sobre “Permissão ao Mundo

  1. Eu acredito que precisamos tomar nossas próprias decisões, baseadas somente nos nossos princípios, não importando mais nada,nem mesmo o resultado.Porque não temos controle de mais nada… somente sobre os nossos princípios,o Espírito Santo de Deus não permite confusão, sabemos sim o certo a fazer.Isso não quer dizer felizes e sem sofrimento, sem angústia mas,sim orgulhosos e paz consigo e com Deus🙏

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